Otakismo – Dance enquanto a música estiver tocando… (Haruki Murakami)

Novo espaço. Novo público. Nova abordagem. A estreia do Otakismo no Chuva de Nanquim.

“Acordo. Onde estou? Reflito. Não só reflito como também me questiono: – Onde estou? – No entanto, esta pergunta não tem nenhum sentido, pois sei exatamente qual é a resposta. [...] Às vezes uma mulher está dormindo do meu lado, mas normalmente estou só. [...] Elas vêm a mim, relacionam-se comigo e um dia vão embora. Elas se tornam amigas, namoradas, esposas. Em certas ocasiões tornam-se minhas oponentes. De qualquer forma, todas acabam se afastando de mim. Algumas desistem, outras se decepcionam, outras silenciam e acabam indo embora. [....] O pior de tudo era constatar que elas saíam do meu quarto mais tristes do que quando entravam.” (Dance, Dance, Dance)

Dance, Dance, Dance – Haruki Murakami

 Haruki Murakami é um escritor natural de Kyoto, geralmente tomado como o provável futuro japonês a ser recompensado com um Prêmio Nobel da Literatura. É sem sombra de dúvidas o mais famoso e influente escritor da atualidade no arquipélago, de longe o mais lido e apreciado pela juventude japonesa. Não é por menos. Sua escrita ágil, pop e folhetinesca toca o coração de adolescentes e jovens adultos que não olham mais para o Japão com o mesmo otimismo e orgulho com o qual olharam seus pais e avós em tempos passados. A obra que escolhi comentar é a que, talvez, melhor captou o sentimento da juventude japonesa dos anos 80. Trocando em miúdos, uma geração tão eufórica quanto desorientada. O nome desse livro agridoce é Dance, Dance, Dance (1988); publicado no Brasil com tradução direta do japonês pela Estação Liberdade, é facilmente encontrado em grandes livrarias.

Murakami não é, no entanto, uma unanimidade entre os japoneses. Seguidor do movimento pós-moderno no Japão, costurando sua narrativa com elementos da cultura pop como Dunkin’ Donuts e Michael Jackson, seus livros são muito atacados pelos críticos literários japoneses adeptos da tradição moderna do país (defensores de nomes como Natsume Soseki, Yasunari Kawabata e Ryunosuke Akutagawa).

Essa informação é interessante para nós na medida em que Murakami passa a subverter as normas literárias aceitas como ‘elevadas’, ‘de qualidade’ ou ‘intelectualizadas’ para falar a mesma língua da mocidade nipônica. Seu sucesso é plenamente justificado – e os seus livros são best sellers, vendem aos milhões – justamente porque, assim como a literatura tradicional não estaria mais dando conta de narrar a realidade mutante, talvez o Japão dos anos 80 para cá não consiga mais apresentar respostas para os anseios dos jovens; o preço pelo indiscutível progresso técnico e material conquistado pelo Japão após a Segunda Guerra mundial está tão salgado que, aparentemente, poucos ainda fazem questão de bancá-lo. Sim, os textos de Murakami sempre apresentam protagonistas angustiados, solitários, tentando manter a cabeça fora da areia movediça em suas jornadas. Além, é claro, de conviverem com outros que não tiveram a mesma sorte e, apesar de nascidos para brilhar, foram drenados pelo lodaçal.

“Sem exagero, posso dizer que metade dos textos que tive de escrever era totalmente fútil, material sem utilidade. Um desperdício de papel e tinta. Evitei parar para refletir sobre isso e fui apenas arrematando trabalhos mecanicamente. [...] Não tinha nenhuma ambição nem esperança. Apenas ia arrematando sistematicamente, de ponta a ponta, tudo o que aparecia. Para ser franco, até cheguei a pensar se isso não seria uma vida desperdiçada. Mas, se até mesmo o papel e a tinta podem ser desperdiçados, não havia razão para que eu ficasse me lamentando. Essa foi a conclusão a que cheguei. Nós vivemos numa sociedade altamente capitalista. Nela, o desperdício é a maior das virtudes. Os políticos chamam isso de requinte da demanda doméstica. Eu chamo de desperdício sem sentido. São divergências de pensamento. Apesar delas, a nossa realidade é indiscutivelmente assim. Os incomodados que se retirem para Bangladesh ou para o Sudão.” 

Espere um minuto – você intervém -, um sentimento generalizado de desamparo fez sucesso no Japão? Então a segunda economia do mundo, um bolsão de prosperidade, segurança pública e respeito social? Exato. E é justamente nesse ambiente que um pessimismo e um mal estar existencial poderiam florescer com mais intensidade. Se você quer entender a razão dessa situação aparentemente contraditória, me acompanhe nesse texto! Murakami é um bom anfitrião ao dar voz aos tímidos japoneses que sucederam os ‘samurais corporativos’ do Milagre Japonês a partir dos anos 80.

O livro

“Não fiz quase nada. Não criei nada. Amei alguém e fui amado. Mas hoje não resta mais nada. A minha vida é estranhamente linear e seu quadro, totalmente monótono. Parece até que estou andando dentro de um videogame. Eu sou o PacMan. Vou apenas comendo os pontinhos pelo labirinto, sem nenhum objetivo. E, com certeza, um dia vou morrer.”

A glacial Sapporo, o ensolarado Havaí e a desumanizada Tóquio são os três cenários onde se desenvolve esse romance. O protagonista, segundo as palavras de Lúcia Nagib, é um “Dissidente silencioso de uma sociedade altamente organizada, onde se recusa a participar do sistema de ensino e trabalho, sua vida é um vagar sem rumo ao embalo da música pop americana e inglesa que não dá espaço à tradição cultural local”.

Nomes do jazz e ícones pop da época (como Genesis, David Bowie e Duran Duran), junto com redes de fast food e marcas de automóveis, são o pano de fundo de sua jornada – muitas vezes onírica – em busca de um sentido para sua vida. Um escritor freela de matérias jornalísticas tapa-buracos resolve passar a régua em sua vida solitária e sem propósito na capital japonesa, e pega o avião para o gélido inverno de Hokkaido. Lá, pretende passar um tempo no hotel decadente no qual se hospedou com a ex-namorada, que, como todas as outras, saiu da sua vida para nunca mais voltar. 

“Por favor, não me deixe mais tempo aqui sozinho…, fiz mentalmente esse pedido. Eu preciso de você. Não quero mais ficar só. Sem você, sinto que sou expelido para os confins do universo por uma força centrífuga. Por favor, apareça e prenda-me em algum lugar. Quero que você me prenda neste mundo real. Não quero fazer parte do clube dos fantasmas. Sou apenas um homem extremamente comum e simples de trinta e quatro anos.”

 

O hotel será o ponto de partida físico da sua procura pelas coisas que foram caindo do seu bolso enquanto vagava por aí, assoviando sem perceber. A partir de lá, encontrará uma série de personagens exóticas, cada uma com sua própria dor, sua própria história; e como um Hamlet pós-moderno, recheará os diálogos com reflexões sobre os mais diversos assuntos. Dos mais complexos, como o amor, a morte e as ideologias, aos mais banais como a cultura pop e a culinária. Nesse meio tempo, o mundo real dilui aos poucos as barreiras com o universo onírico, ao ponto de ficar difícil distinguir onde, de fato, as personagens estão com a cabeça.

“Que absurdo! Perdi a autoconfiança. Será que irei apodrecer, falando sozinho, dessa forma, nesse lugar que parece um cemitério de elefantes da sociedade altamente capitalista?

O Japão oitentista de Murakami 

“Como não fazia havia tempos, liguei o rádio e segui para o oeste ouvindo rock. A maioria das músicas era sem graça. Fleetwood Mac, Abba, Melissa Manchester, Bee Gees, KC & Sunshine Band, Donna Summer, Eagles, Boston, Commodores, John Denver, Chicago, Kenny Rogers… Essas músicas apareciam e desapareciam como bolhas de espuma na água. Que droga! Um lixo de música de consumo para arrancar o dinheiro da garotada, pensei. De repente bateu uma melancolia. Os tempos mudaram. Era só isso.”

O Império Japonês derrotado na Segunda Guerra pelas tropas norte-americanas deu espaço para um governo parlamentar pacifista e progressista. Com auxílio do capital americano, o Japão rapidamente se reconstruiu e orientou sua economia industrial para as exportações. Nas décadas de 60 e 70 o país entrou no processo chamado de “Milagre Japonês” com uma economia em plena ascensão (as Olimpíadas de Tóquio em 64 foi, grosso modo, o que Rio 2016 será para nós). Os anos 80 foram o auge absoluto desse processo. Economistas diziam que a superação da economia americana pela japonesa não era mais discutida em termos de ‘se’ (no sentido de possibilidade), mas sim em termos de ‘quando’. Sony, Toyota e Nintendo invadiram o mundo. O país concentrava riqueza e a distribuía de modo igualitário. Após muito sofrimento, finalmente chegara a hora da bonança.

O Japão tinha se tornado o exemplo maior do sucesso capitalista e posou como modelo ao mundo, de como um país sem recursos poderia construir seu próprio caminho de sucesso com muito trabalho árduo. No entanto, as coisas não eram tão simples e maravilhosas assim, conforme denunciaram os jovens japoneses dessa época, aqueles que nunca passaram pelas privações da guerra e da reconstrução do país.

“As pessoas reverenciam a dinâmica que o capital possui. Idolatram seu caráter mitológico. Adoravam o preço do terreno em Tóquio e o que simboliza o Porsche que brilha reluzente. Pois, além dessas coisas, neste mundo já não resta mitologia nenhuma. (…) Neste mundo, a filosofia vai se assemelhando a uma teoria econômico-administrativa.”

As jornadas de trabalho eram desumanas (resultando em inúmeras mortes por excesso de trabalho e fragmentação do núcleo familiar); o clima de competição instaurado tornou a atmosfera escolar rarefeita demais (e disso ganhou força o ijime [bullying] e o alarmante índice de suicídios infanto-juvenis); as corporações japonesas sustentavam seu crescimento com ampla degradação dos recursos naturais, entre outros fatores. O clima geral, claro, era de otimismo bobo e consumismo desenfreado, mas parte dos estudantes japoneses passou a olhar para esse Japão quase irreconhecível, responsável por exigir demais de todos os cidadãos, e a se questionar: O que estamos fazendo? Estamos realmente trilhando um caminho saudável?

Falamos de um Japão apartado de suas raízes religiosas e morais, tendo como única referência o “Deus Mercado Livre” e a “Princesa Economia”. País maduro até demais, já começava a apresentar os primeiros pontos de bolor. Prometeram-lhes a felicidade com o desenvolvimento econômico. Eles correram atrás e se tornaram mais ricos do que qualquer um poderia supor, para, enfim, perceber que felicidade não é algo assim tão fácil de ser encontrado coletivamente. Pior, toda essa riqueza estava cobrando um preço indignante. Se a economia era a única referência reforçada pela sociedade, se eles já tinham alcançado o topo do mundo nesse sentido, e ainda assim continuavam incomodados, em qual direção correr? Sem dúvidas os índices sociais do Japão davam inveja a quase todos, mas não pensem que é fácil dar sentido à uma vida momentaneamente sem objetivos claros. No caso japonês, a crise de perspectiva é ainda mais grave por questões naturais. Eles têm consciência da destruição de tudo o que foi erigido suando sangue. O Grande terremoto de Tóquio é um fato, hoje ele é esperado a qualquer momento.

“Expliquei-lhe que o desperdício era uma grande virtude das sociedades altamente capitalistas. O Japão, ao adquirir os Phantoms dos Estados Unidos com misturadores nada econômicos, movimentava um volume maior no comércio de combustíveis, e esse adicional repercutiria na economia global, que consequentemente alimentaria cada vez mais o capitalismo global. Se todas as pessoas, de uma só vez, deixassem de desperdiçar, ocorreria um colapso geral e a economia global se desestruturaria [...] ele admitiu que eu poderia estar com a razão. E continuou dizendo que tinha muita dificuldade em entender essa nova estrutura social capitalista por ser de uma geração que sofreu muitas privações materiais na infância durante a guerra.” 

Esse é o Japão que serve de cenário para Dance, Dance, Dance. Jovens apáticos e indiferentes ouvindo Phil Collins e comendo frango frito no KFC; freelancer sem perspectiva de futuro entregando trabalhos descartáveis para sobreviver, funcionárias neuróticas, abandono familiar, entre outros.

As relações entre a juventude japonesa oitentista e o discurso da pós-modernidade

“Deitado na minha cama, odiei o mundo. Odiei mesmo, profunda e intensamente. O mundo estava repleto de mortes sem graça e ilógicas. Eu era impotente e estava atolado na sujeira desse mundo-cão. As pessoas chegavam pela porta de entrada e partiam pela porta de saída. As que saíam jamais retornavam. O que mais estou para perder? Como você disse, talvez eu não possa mais ser feliz. Isso não importa, mas essa situação é terrível demais.”

Além do contexto específico da realidade japonesa, das inseguranças típicas da idade e inerentes da condição humana, Murakami produz uma obra global, bastante antenada com a situação do mundo àquela época. Você já deve ter ouvido o termo ‘pós-modernidade’. Entendê-lo é essencial para sentir a textura que se esconde por trás dos textos pop do japonês. Não se preocupe, não ficarei com intelectualismos, mas tentarei fazê-los entender essa atmosfera pessimista e imediatista que varre o mundo desde os anos 80 sob essa ótica.

A consciência pós-moderna é o reconhecimento de um fracasso. Qual? A derrocada da Modernidade, que fracassou nas utopias que nos prometeram. Pessoas com essa ‘consciência’ estariam despertando de um sonho em tons pastéis para um pesadelo cinzento; perceberam que todas as flores são, na verdade, de plástico e que o perfume é sintético. Calma, eu explico melhor.

A Modernidade é o nome dado para algo que se iniciou na Europa por volta de 1500, quando o homem foi colocado no centro do mundo (antropocentrismo do Renascimento); os rumos do planeta foram colocados nas mãos da racionalidade, ou melhor, da ciência (a partir do cogito cartesiano); e as religiões pouco a pouco ganharam status de superstição barata. Os Estados nacionais seriam os responsáveis por produzir segurança no mundo, na condição de produtor de justiça social e esforços para melhorar a qualidade de vida (esse discurso em tempos de guerras consecutivas e fome é muito atraente). Em conclusão, a Modernidade tinha um objetivo futuro , uma linha de chegada para um lugar onde permanecer, enfim, a promessa de um mundo melhor.

“-Você gosta do Dalai Lama?

-O que é isso?

- É o monge mais importante do Tibete.

- Nunca ouvi falar.”

O Japão seguiu essa cartilha com afinco a partir do século XIX, durante o processo de ocidentalização. Justamente na época em que intelectuais europeus, como Nietzsche e Freud, começaram a levantar a hipótese de que a Modernidade trouxe tantos problemas na bagagem, que talvez seja melhor que fosse substituída.

É esse ‘projeto racionalista’ que alçou o Japão ao topo do mundo, é isso que fez a Toyota engolir a General Motors e dominar o mercado americano. Dedicação absoluta ao trabalho. Mas isso trouxe segurança no mundo apenas em partes. É verdade que não havia mais guerras ou fome. Por outro lado, as pessoas foram aceleradas ao ritmo das máquinas que operavam. Horas extras intermináveis marcam o mundo empresarial japonês. Tudo precedido por inacabáveis horas de estudo para entrar nos melhores colégios, que determinavam quem ia para as melhores universidades, que por sua vez, decidiam os poucos aptos a uma vaga numa grande corporação. Estavam todos correndo, mas não ao local prometido pelo projeto moderno, corriam a esmo. E ao correr para colocar Walkman nas mãos de todos os adolescentes do mundo que podiam pagar por um, os japoneses esqueceram-se dos seus próprios filhos.

A perspectiva pós-moderna é aquela que não acredita mais em noções de progresso, mundo melhor, linha de chegada. Na verdade, pós-moderno é aquele que não consegue acreditar em nada. Ele vê o mundo como um palco em branco.  Não há aonde chegar, não há direção correta, qualquer direção vai dar em algum lugar que não é melhor do que os outros possíveis. Quando se acredita nisso, fica complicado traçar planos para o futuro [“Não tinha nenhuma ambição nem esperança”], trabalhar por um amanhã [“fui apenas arrematando trabalhos mecanicamente”], não? Isso fica claro em vários trechos de Dance, Dance, Dance (eu poderia citar outros tantos):

“Eu estava bem no meio de um espaço em branco. Era um branco que preenchia todos os espaços e, por mais que caminhasse, essa brancura me acompanhava. Não chegava a conclusão nenhuma. [...] Eu estava sozinho e com medo. Sentia-me sozinho como se fosse uma criança perdida na floresta.” 

“Enquanto observo a chuva cair, reflito sobre o que é sentir-se fazendo parte de algo. Penso também no que é ter alguém chorando por mim. Tenho a sensação de que tudo isso faz parte de um mundo muito, mas muito distante.” 

“Durante algum tempo, senti um vazio sem fim. Eu, no final das contas, não ia a lugar algum. Todos é que iam partindo sucessivamente, e somente eu permanecia no estado de incubação.”

“Estou me perdendo e deixando-me perder. Estou confuso. Não estou ligado a lugar algum.”

“Por onde, afinal, devo começar? Não consigo alcançar nada. Estou totalmente perdido.”

“Como minha ex-mulher dizia, enquanto for capaz, só irei magoar mais e mais pessoas”

Os adolescentes japoneses dos anos 80 – confrontados com o distanciamento familiar, com as cobranças escolares asfixiantes, com a ausência de vida espiritual, em suma, com um futuro nada promissor em termos de ‘felicidade’ – foram o hardware perfeito para a instalação desse software mental na forma de um mal estar cínico. Não queriam sair de uma infância rica e mimada para a competição carnívora pelas melhores universidades, empresas e, por que não, parceiros afetivos (homens herbívoros mandam lembrança).

Amarrando esse raciocínio com o livro, Murakami nos mostra o que acontece quando toda uma geração, gozando de uma condição sócio-econômica privilegiada, se depara com a falta de perspectivas. Todas as principais ‘doenças sociais’ do país (karoshi, hikikomori, ijime, enjo kosai, otaku) nasceram ou foram intensificadas no auge da aceleração dessa dinâmica (anos 80) ou no estouro da bolha financeira e conseqüente recessão econômica (anos 90 e 2000), quando eles já eram um país próspero (nos termos da Modernidade). O clima do livro é pesado do início ao fim, Murakami não parece descartar a possibilidade de uma vida findada em tragédia, mas convoca o leitor, durante toda a jornada, a se manter de pé:

“Enquanto a música estiver tocando, você deve continuar a dançar. Entende o que quero dizer? DANÇAR, CONTINUAR DANÇANDO. Não deve pensar no motivo ou no sentido disso, pois eles praticamente não existem. Se ficar pensando nessas coisas, seu pé ficará imóvel. Uma vez parado, já não serei mais capaz de agir. VAI SE ACABAR PARA SEMPRE, ENTENDEU? Daí, só lhe restará viver unicamente neste mundo [da fantasia]. Cada vez mais será sugado por ele. Por isso, não deve parar de mover os pés. Por mais que lhe pareça uma tolice, não deve ligar. Deve continuar dançando, dando passos (…) Ainda deve haver algo que não esteja perdido. Use tudo o que puder usar. Dê o máximo de si. Não há o que temer. Você deve estar mesmo cansado. Cansado e com medo. Qualquer pessoa passa por esses momentos. Sente que tudo está errado. Por isso ficam inertes”

Daí o título Dance, Dance, Dance. Nomeando o livro com o clássico dos Beach Boys, Murakami – testemunha de inúmeras pessoas que estão paralisadas pelo medo de agir, ou então já estão desesperadamente em queda livre no abismo – relembra o projeto de homem desenhado por Nietzsche: Aquele que cai no abismo… dançando!

(Observação: Parafraseei e usei trechos literais da palestra “O Diagnóstico de Zygmunt Bauman para a pós-modernidade: uma agenda para o inverno” do filófoso Luiz Felipe Pondé, pois achei muito clara, didática e conceitualmente coerente.)

por Otakismo

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45 Comentários

Arquivado em Matérias, Otakismo

45 respostas para Otakismo – Dance enquanto a música estiver tocando… (Haruki Murakami)

  1. Ótimo post, ótima estréia também. Além de claro um post muito cultural e informativo. Parabéns ao Otakismo e ao ChuNan! xD

  2. Oi!!!

    Ei, Otakismo agora no ChuNan é sinal de que… De que… Hã…

    Tudo bem. Otakismo tem uns textos bem sérios, críticos e bem construtivos. É uma área diferente da cultura japonesa por ele descrita…

    Netotin acha isso muito legal.^^

    ChuNan, cuide bem do Otakismo, hein?

    ~netin!

  3. Fernanda

    Ótimo post!! Adorei ler algo diferente, isso prova que cultura japonesa não é só ver animes e ler mangás. Boa estréia e seja bem-vindo ao ChuNan!!

  4. Alisson

    Texto incrível! Só li “Após o Anoitecer” (?) e “Kafka a beira-mar” do Murakami, mas acredito que essa aura que você descreve sobre “Dance, Dance, Dance” também se encontra nos livros que li. Novamente, ótimo texto.

  5. Haruki é vida.
    Meu autor preferido. Sugiro Kawabata, pra uma coisa totalmente diferente

  6. Kyeron

    Ótimo post, achei muito bom sair um pouco dos animes e mangas e mostrar um pouco mais das outras veias culturais do Japão que também são bem interessantes

  7. Gostei do que vi nesse texto. Ótima aprendizagem para os que sonham com um Japão perfeito, não é assim que a banda toca.

    Fico no aguardo pelo seu próximo post, espero que não demore muito para postar novamente.

  8. Walquiria (@walquiriayouko)

    ótima estréia!! Muito cultural e informativo!!! Haruki é realmente incrível!!

  9. Diego

    Legal, adorei o post e a forma que você escreve, que é muito boa por sinal, parabéns.

    Eu só queria saber, se os livros de uma forma geral, ainda mais com esse conteúdo, é lido pelos atuais jovens do Japão. Eu sempre vejo o pessoal do Japão dizendo que apenas os mais velhos leem livros no metro e que o pessoal mais jovem é tudo mangá. Se for olhar todo mundo que teve a juventude marcada por esses livros já estão mais velhos, e os atuais adolescentes e jovens adultos não devem conhecer muito aquilo que realmente marcou, apesar de ainda viverem a maioria dos problemas citados.

    Enfim, sucesso na nova coluna.

    • otakismo2

      Claro, no recorte geral os mangás são mais consumidos, mas os jovens japoneses leem sim mais do que a média. Povo muito instruído, ávido por informação, alimentado por um mercado editorial grosseiramente poderoso. Há os clubes de literatura nas escolas, o que ajuda também. As tiragens do Murakami são calculadas em milhões, e quem o lê são os jovens, em geral. Esse livro é de 88, mas há lançamentos recentes, como 19Q4, muito bem vendidos.

      Tem aquele fenômeno também: nem todos os leitores de Harry Potter e Crepúsculo se tornaram/são leitores habituais, mas devoraram esses livros em poucos dias. Murakami por lá tem um pouco disso.

  10. Anders

    Excelente texto, o melhor que eu já li aqui; parabéns!

  11. De fato, um texto revelador e reflexivo. A filosofia pós-moderna faz todo o sentido nos dias atuais, apesar das diferentes concepções dos próprios autores sobre esse movimento/pensamento. Por fim, é isso mesmo: só nos resta ‘dançar’!

  12. neon-naito

    Excelente texto!
    Muito bom o Chunan tratar de literatura japonesa, e sua cultura e história ao seu redor. Espero por mais!

  13. Kauê, por aqui agora! Sou fã dos teus textos!

    Que ótima notícia saber que tu não desistiu de continuar escrevendo sobre a cultura japonesa. Não conta para ninguém, mas o Otakismo sempre foi um dos meus blogs preferidos (talvez o melhor, na minha humilde opinião). Tu é uma das raras pessoas que SABE escrever, que dá gosto de ficar na frente do computador imersa lendo teus artigos.

    Demais!
    Continua assim, hein! ;)

    (obs: sou a JO, dona do antigo Estação Harajuku. Agora tenho novo blog, o Paprika).

  14. Muito bom saber que você está de volta, voltou a escrever e continua em ótima forma, Kauê. Você fez falta, fique sabendo.

    Seu texto está delicioso e não vejo a hora de ler este livro, fiz encomenda. Enquanto eu lia a parte do “dançar sem parar, não pensar em nada”, fiz um link mental imediatamente com o cenário musical da inglaterra dos 80/90, com seu som pontuado por faixas eletronicas, muitos samplers, o rock progressivo. Aquilo é sensacional, é um convite a um estado de alienação de tudo. O os arranjos são dançantes, psicodelicos, mas a melodia sai melancolica, com letras muito questionadoras.Joy Division, Depeche Mode,New Order, Pink Floyd, entre outros, tem aquele som pontuado no caótico dançante.
    E não sei se estou dizendo alguma besteira gigantesca, mas acho que Murakami conseguiu captar perfeitamente esse feeling irônico em Dance Dance Dance e a alienação da juventude. Enfim, acho que não consegui me explicar bem, vim ler o texto porque estava sem sono, mas agora terminei e o sono voltou.

    • otakismo2

      Isso faz sentido sim, Beta, inclusive o livro é carregado com o repertório musical do Murakami. Ele tangibiliza esses sentimentos que você citou, e outros, usando exemplos musicais. Do ataque mais direto à inconsciência das músicas de Boy George e Duran Duran, até às criticas ao conservadorismo certinho da dupla Simon & Garfunkel (um dos pilares da música americana nos anos 60). Uma das personagens vive com um Walkman ouvindo justamente essas bandas que você citou, permeada pelo tédio e pelo sentimento de abandono. Uma perfeita indução à alienação, você captou legal o clima. Acho que vai gostar do livro!
      Obrigado pelo carinho.

  15. Kurama

    Depois de um post sobre putcharia, só assim pra equilibrar.

  16. Uau! Neste pequeno quarto de sonhos pasteis como o ChuNan, vem a brancura de Otakismo?!? Maravilha! Veremos no que isto vai dar!

    (e digo o mesmo para voce, amigo autor não pare de escrever… não pare de dançar!)

  17. Conhecer mais dessa parte da cultura japonesa é muito bom.

  18. Koyuki

    Caralho, que texto… Já vou procurar este livro pra compra!!!

  19. > uma geração de pessoas morrendo de trabalhar
    > próxima geração de ‘foda-se essa merda’
    > é, faz sentido… o ser humano é campeão em combater um extremo com o outro.
    Me lembra também o filme Beleza Americana, quando o pai deles pega o emprego de atendente no Mc Donalds procurando um trabalho com a menor responsabilidade possível.
    Talvez seja um movimento necessário para equilibrar a balança. Estando no meio do furacão é dificíl dizer.
    Só espero que não percam a capacidade de feitos admiráveis como a solidariedade demonstrada no evento do terremoto ano passado. Que outro lugar do mundo não haveriam saques e veríamos comerciantes distribuindo comida de graça?
    (é, apesar de tudo eu gosto de ver o melhor do ser humano)

    • Koyuki

      “Que outro lugar do mundo não haveriam saques e veríamos comerciantes distribuindo comida de graça?”

      Na maioria dos países acima da linha do Equador.

    • otakismo2

      Como você citou Beleza Americana, podemos fazer uma analogia das produções japonesas com o cinema americano em 1999.

      Nesse ano, a América produziu, entre outros bons filmes, Beleza Americana, Matrix e Clube da Luta. O primeiro, a exposição de um fracasso bem mascarado; O segundo, um convite à saída da caverna; O último, a tentativa de desestabilização de um sistema tomado como podre. Na mesma década que o Japão teve seu Murakami, seu Evangelion, seu Aum Shinrykyo.

      O Bauman, que citei no final do texto, olha esse mal estar generalizado com certo otimismo. A partir da percepção de que algo está muito errado, talvez seremos capazes de desenvolver uma nova ética, um novo modo de viver, mais humano, menos asfixiante. A tal ‘agenda para o inverno’ em que vivemos.

  20. Você conseguiu por em texto algumas das críticas que vejo em alguns mangás que leio, tipo Death Note e Bakuman (Ohba e Obata aí), essa crítica de sempre almejar um local seguro e confortável, o trabalho em escritório, a vida de assalariado, sempre na busca de trabalho, trabalho, trabalho. Onde fica a família nisso tudo? um texto de alta qualidade como nunca vi e uma boa recomendação de leitura para alguém interessado em algo mais do Japão além dos animês e mangás. Espero ansiosamente o próximo texto de sua autoria aqui. Até lá, continuarei dançando…

  21. Roger

    Mais um ótimo espaço com excelentes matérias. Mais conhecimento sobre a cultura japonesa que tanto amamos é sempre bem vindo. Parabéns pelo post ChuNan!!!

  22. Rayovac

    Incrivel… é facil de entender apesar de cansativo, mas é realmente bom, vai trazer mais um pedaço da cultura niponica a todos os leitores do ChuNan, realmente foram caprichosos dessa vez, é a melhor estréia de quadro que eu vejo vocês fazendo, parabéns e continuem sempre evoluindo e crescendo junto com nós (seus leitores)….

    Isso me lembra que faz um ano e meio mais ou menos que o ChuNan existe e eu acompanhei praticamente todas as matérias desde o começo…. e ver como ele está agora da até orgulho de ser um leitor hehe

    Rayovac!

  23. Cassio

    Nossa!!! Otimo texto!!! É bom sair um pouco de só animes e mangás e falar mais sobre essa coisas…
    Enquanto eu lia o texto, eu consegui fazer links com criticas que eu tinha lido antes sobre essa coisa trabalho em primeiro lugar e familia por ultimo…

  24. Grace

    Isso nos leva ao assunto NEET’s no Japão.
    Recomendação de anime que aborda assuntos existenciais: Higashi no Eden – muito bom.
    Ótimo post, parabéns!

  25. Fico pensando no que marca um desenvolvimento como o do Milagre Japones. No “preço que se tem de pagar” para que em tese a “felicidade efemera do capitalismo seja conquistada”.
    Chega a ser assustador. Cada vez mais percebemos em nosso mundo indicios de que alguma coisa está errada. Certos valores ficaram deturpados no processo, e estão começando a desmanchar…

    Enfim, a gente vai vivendo, vou dar uma pesquisada na obra do autor.

    Abraço, excelente texto.

  26. d415uk3

    Texto muito interessante. Minhas professoras de Literatura Japonesa foram as tradutoras deste livro. Ainda não tive a oportunidade de ler, mas seu texto me fez ficar ainda mais instigado.

  27. O preço é muito “salgado” =(

  28. Raquel

    Gostei do seu texto, tomara que tenha mais assim no chunan. Já que consumimos produtos orientais nada como entender o que se passa/passou no mesmo. Até porque essa era pós-moderna com a visão pessimista já não engloba apenas o Japão a meu ver. Alienar-se com novela e futebol é outra forma de se distrair dos problemas que o capitalismo trouxe. Parabéns Chunan! =D

  29. Até hoje tenho orgulho de ter tido aulas na faculdade com a professora Lica Hashimoto, tradutora de Dance Dance Dance. As aulas de tradução dela foram todas feitas em cima desse livro… uma leitura ótima em português e uma maneira bem interessante de treinar o japonês, para quem está aprendendo. ;)

  30. Post excelente e primoroso. Sem dúvida, uma agregação mais do que valorosa de conhecimento para todos aqueles admiradores da cultura japonesa; como uma amostra do lado menos bonitinho, que fica escondido pelas camadas de garotas sorridentes em uniformes colegiais, karaoke, tecnologia e chá com ohagi sob guarda-chuvas janomegasa. De fato, exemplifica o despertar de sonhos em tons pastéis para a realidade cinzenta, onde você afunda se parar de dar braçadas a favor da correnteza.
    E não é um problema exclusivamente japonês, essa busca meio que exarcebada por um progresso que, de certa forma, já está aí. Há todo um sentimento de cães que perseguem rodas mas, quando as alcançam, não sabem o que fazer. Se não sabe o que fazer, por que perseguí-las? Por que se mover? Por que não simplesmente se deixar ser sugado? O mal do século é agora – ou começou há um tempão e veio para ficar em definitivo, deixando os pés cada vez mais pesados e desajeitados para se executar o mais simples passo de dança.
    Eu definitivamente vou adquirir o livro. E queria dar os mais sinceros parabéns por mais este texto brilhante.

  31. Paulo

    Parabéns pelo excelente texto, pois além de bem escrito e ele foi muito informativo. Espero que vocês publiquem textos desse mesmo teor o mais breve possível.

  32. Matheus

    Texto muito bom!De livro oriental só li Sayonara Gangsters do Takahashi Genichiro(e outro que fala de imigração japonesa, mas é de um descendente de japonês então não conta :P ) que seria interessante você fazer uma análise(ou se não conhece,recomendo!), apesar de que esse livro é um daqueles que ”só lendo para entender” de tão louco que é, colocarei “Dance,Dance,Dance” na minha lista de compras :)

  33. Sei mais que todos

    Vendem aos milhões? Cadê a fonte?
    Murakami vende bem, mas 1Q84 está bem longe de chegar ao milhão.

  34. 0,000000000000001

    Não sou um leitor muito afinco(pesar de ler muitos mangas), a maioria das obra que li foram nacionais, aquelas que os professores passam como trabalho, então nunca me senti muito interessado para ler obras de fora,pois sempre pensei que se já era difícil entender nosso compatriotas, por que sempre tinha um significado por trás que não me deixava apreciar a obra até encontra-lo quem imaginaria uma obra estrangeira ,entretanto seu texto realmente me cativo me deu vontade de dar uma chance a esse livro.Gostei do post.

  35. lianaly

    Nunca li nada do Haruki Murakami, estava adiando nosso encontro para quando lançassem 1Q84 (quase um ano de espera já!), mas acho que vou pegar esse, tua review me deixou mais que cuirosa.
    Muito didática tua explicação de pós-modernidade, depois de quatro anos discutindo isso em aula ainda consegiu me passar uma coisa totalmente nova.

  36. J. César

    Cara, se vc soubesse o quanto esse Post me fez pensar, sou um cara de 16 anos, e q me sinto perdido, e as frases q encotrei no texto realmente vão me ajudar daki pra frente. Nossa Muito bom, Porra ganhei o dia depois de ler isso. Thanks Men

    “DANÇAR, CONTINUAR DANÇANDO. Não deve pensar no motivo ou no sentido disso, pois eles praticamente não existem.”

  37. Como é bom ver o Otakismo de volta. Fiquei contente mesmo acompanhei por muito tempo e tendo ele aqui que eu sempre visito fica ainda mais fácil.
    Parabens pelo texto Kaue. Isso tbm me lembra sobre como o Tsugumi Ohba adora contar sobre como ele odeia o trabalho de assalariado.

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