Um curta metragem chinês é o protagonista dessa postagem.
Furei o cronograma. Estava construindo aos pouquinhos um texto sobre um filme japonês. Fui obrigado a passá-lo para trás. Por enquanto. Hoje não vim aqui ‘dar aula’, mas dialogar com pessoas. Não serei verborrágico. Até porque a obra que trago como recomendação imediata trata justamente da incapacidade das palavras darem conta de certos momentos, situações e emoções.
Song Song e Little Cat é um curta metragem dirigido pelo chinês John Woo e faz parte da coletânea responsável por reunir outros seis curtas sob o título guarda-chuva “Crianças Invisíveis”. Este projeto, financiado para benefício da UNICEF, teve como proposta dar liberdade criativa absoluta para sete diretores, de sete diferente países, expressarem uma visão particular a respeito da infância em seus países de origem. Mais precisamente das crianças invisíveis, aquelas que não sabemos (ou fingimos não saber) de sua existência, das quais desviamos nas ruas abarrotadas sem lhes dirigir nem mesmo um olhar.
A coletânea dá corpo a essas crianças translúcidas em diversas partes do mundo (EUA, China, Inglaterra, África do Sul, Sérvia, Itália e Brasil), e ao materializá-las, torna-as visíveis para o espectador que só consegue rachar o gelo da insensibilidade e do conformismo no conforto de uma sala de cinema. O projeto reuniu pessoas do escalão de Spike Lee e Emir Kusturica, mas o biscoito fino da gravação é o segmento chinês que fecha o filme. John Woo foi especialmente feliz na sua abordagem, pois não falou apenas de crianças, falou de humanidade.
Em Song Song e Little Cat temos uma China imersa em suas conhecidas contradições. Uma desigualdade social pornográfica, a política do filho único, o desprestígio de ter uma filha mulher, a exploração do trabalho infantil. Nesse cenário, conhecemos a vida de duas meninas chinesas. A primeira, abastada, pianista, penteada, rodeada de brinquedos, mas carente de afetos no seio de uma família que se encontra em estado de ruínas; A segunda, miserável, foi abandonada na rua e encontrada por um catador de lixo que a criou com muito carinho, mas mesmo assim não pôde oferecer a ela um ambiente mais saudável para seu desenvolvimento.
Essas duas meninas são ligadas pelo acaso e reconhecerão nos olhares uma da outra sua própria natureza humana, e o mesmo em seus semelhantes. O curta tem poucos diálogos, geralmente triviais e sem efeito. Justamente porque a premissa dessa história é de que a linguagem verbal é limitada e não dá conta dos momentos mais pungentes da nossa experiência humana. Me apresentaram esse curta para explicar o conceito platônico de Arrethon, “o estado da alma tão profundo, visceral, que não há nenhuma palavra capaz de capturá-lo”. Quando algo realmente impactante – demasiado humano-, nos acontece, ficamos sem palavras. O que são lições de moral e frases de impacto diante do incapturável da nossa experiência?
O ponto alto do curta de Woo são os olhares. A real comunicação e empatia entre as pessoas se dá no momento em que o incapturável de cada um entra em contato com o outro. O que é brilhante, pois o filme nos mostra, dentro da proposta do projeto, que só poderemos compreender a experiência do próximo se nos dermos ao trabalho de cruzar olhares. Por isso são crianças invisíveis. Fugimos do olhar que, lancinante, nos arrebata. Ameaça nossa superfície. Nossa frágil estabilidade. A cena do homem que agride a pequena vendedora de flores registra isso com precisão suíça. O olhar da criança simplesmente… o desarma.
O tema não é novo. A própria cultura pop já o explorou diversas vezes. A surreal I’m the Walrus dos Beatles traz isso nos versos (I am he / As you are he / As you are me / And we are all together). O Pink Floyd, então, em mais de um momento, como na épica Echoes (Strangers passing in the street / By chance two separate glances meet / And I am you and what I see is me) ou na belíssima Us & Them (Out of the way, it’s a busy day / I’ve got things on my mind / For the want of the price of tea and a slice / The old man died). Roger Waters, letrista do Pink Floyd, inclusive, explicita sua opinião em uma entrevista: “Será que os seres humanos são capazes de se identificar e se solidarizar uns com os outros, em vez de se hostilizarem, desconfiarem ou se explorarem mutuamente”?
Por hoje é o que tenho a dizer. O curta está na íntegra no vídeo abaixo. Menos de 20 minutos, menor que um episódio de um anime. Assistam! Infelizmente só está disponível com legendas em inglês. Mas e quanto a você, para o que tem olhos?

























Interessante texto. Curto e envolvente. Vou dar uma chance ao projeto como um todo, procurar olhar os curtas.
Mas pera, não tem bullet time e pombas voando em uma igreja? Acho que não é filme do John Woo, hahaha.
Sou do tipo extremamente sensível… choro por qualquer coisa (inclusive por animes e mangás), e quando choro, sofro duas vezes. A primeira é pela dor alheia que sinto naquele momento, e a segunda por ser ‘incapaz’ de mudar aquela situação.
E por isso sempre me deprimir, sou daquelas que fecha os olhos para as crianças de rua de São Paulo (quero ver hipócrita me criticar).
É fácil andar de mãos dadas com meu filho na Liberdade e fingir não ver os pés descalços dos meninos nas escadas do metrô. O difícil é me convencer que aquele aperto no meu coração não está ali naquele momento.
Em um dia desses, meu filho me perguntou porque o menino estava sem chinelo já que aquilo iria machucar seus pés. Lhe expliquei meio por cima a situação, e procuro ainda sem muito sucesso, uma forma de abordar o assunto de maneira mais humana e adequada… engraçado, né? Procuro uma forma humanizada pra falar do desumano.
O homem é mesmo difícil de entender… por um lado temos aqueles que não se importam, mas fingem se importar… por outro aqueles que se importam e fingem não se importar.
E, por favor, não me venham com um discurso moralista de quinta, dizer que é por culpa de pessoas iguais a mim que o mundo está como está hoje (sabemos que isso não é verdade). É assim que me sinto e fui sincera em minha exposição.
Do mais, senti falta da hemorragia verbal = ) gosto disso nos seus textos!
Congrats!
Fantástico. Si tudo o que você escreveu for verdade, provavelmente é uma das pessoas mais humana que tem. No fundo todos si importamos e não nos importamos ao mesmo tempo. De certo modo apesar dessas coisas serem difícil. Nada pode si fazer a respeito por natureza somos egoísta e sempre será assim. Mais você e interessante por si importar tanto.
Suas palavras resumiram tudo que eu tinha a dizer, Cíntia! Sinto o mesmo quanto a essas crianças…
E nada há de hipócrita no que disse, é exatamente o que acontece, eu acabo agindo assim. Mesmo não tendo filhos, tenho meus sobrinhos, que moram comigo, e sei o que você quer dizer com fingir não ver e sentir o que não quer. O ser humano é um animal complexo, e isso significa que tem muitas falhas, ninguém pode julgar suas atitudes. Isso sim, seria hipócrita!
Não tenho nem o que falar depois desse comentário…
Fiquei sem palavas, sério.
Ah esse curta é ótimo. Vi há tempos já e o adorei. Pena que vi em uma palestra e apenas esse foi mostrado, queria ver os outros…
Mas é divino.
Se sobrar um tempo vou checar.
Coincidentemente, me passaram o mesmo vídeo na faculdade semana passada. E devo dizer que é uma realidade extremamente chocante, trata-se de uma situação muito delicada, em que muitas das vezes fechamos os olhos para fingir que isso simplesmente não existe (admito que já fiz isso), fazendo jus ao nome do curta (o lado que de fato não vemos dessas crianças). Me fez questionar também sobre alguns aspectos ligados diretamente à sensibilidade humana, e me pergunto, até que ponto permitimos que isso se agrave? Pois de uma maneira ou de outra, contribuimos com isso, já que nesse caso sabemos muito bem que consumimos, por exemplo, produtos feitos à base do suor dessas crianças, que são escravizadas em troca da própria sobrevivência.
Bom a melhor forma de pensar é que, nosso coração tem limite de pessoas para nos importar no caso o limite é de 10gb, esses 10gb vão ser preenchidos com nossos relacionamentos familiar e amizade, o espaço que cada um ocupa no coração si baseia na prioridade e no tanto de tempo que cada pessoa passa com você, por isso amigos ou amigas ocupa menos espaço já os familiar ocupa mais e os filhos pode chegar a ocupar ate Gb de espaço. Si o espaço do coração i enche você não pode mais si importar com os outros, pois já tem pessoas importantes para si importar.
Noooooossa, lembro q minha professora mostrou isso para a minha sala uns 6 ou 7 anos atras, na terceira ou quarta série (ñ lembro).
Quando vi a imagem do braço da boneca quebrado, logo me lembrei
É impossível n se emocionar com este curta…
Excelente o vídeo!
Valeu a recomendação! Sempre é bom tirar um tempo para refletir.
Uma reflexãozinha em cima do que a Cíntia Miguel falou, usando um exemplo que ocorreu hoje comigo.
Hoje eu tava na aula e comecei a pensar na cerimônia de encerramento das Paralimpíadas, que ocorreu ontem. Daí lembrei que em 2016 vai ser no Rio, e que, no Pan, o pessoal que comparecia aos eventos vaiava gratuitamente atletas, dirigentes, autoridades, hinos… O que fosse. E isso é algo que eu realmente não quero que aconteça em 2016… Daí eu comecei a pensar: Eu vou ficar só QUERENDO que isso não aconteça? Vou esperar cair um raio na cabeça de todos os brasileiros que de repente faça com que nós percebamos que isso não é certo? Quem vai promover essa mudança?
E então comecei a pensar no que eu poderia fazer pra mudar isso. E não consegui encontrar nenhuma solução. Me senti impotente, fracassada…
E é assim com tudo. Sei que o exemplo das Olimpíadas pode ter parecido meio “nada a ver” ou irrelevante em relação ao problema das criancinhas, mas é o que lembrei pra tentar explicar.
É como: “Ah, não sei o que fazer pra mudar isso” ou “não tenho como mudar isso, então vou virar as costas”. E esse é o caminho que todos tomamos. E eu não acho que seja por mal… Mas é que às vezes, já temos tantas coisas com as quais nos preocupa (e que por mais que sejam muitas vezes preocupações supérfluas quando comparadas a outras, são essenciais para vivermos), que não cabe uma preocupação com a criancinha da rua, com a corrupção do país, com a guerra o Oriente Médio, com as vaias nas Olimpíadas…
O que eu acho que não cabe é a constante reclamação sem ação nenhuma. Não estou dizendo que não se deve reclamar; a reclamação e a discussão são essenciais. O que eu acho é que tudo já foi “reclamado” demais. Do que adianta eu logar no facebook agora, e postar: “Ain não aguento mais a corrupção desse país!!’, ou então postar uma foto de uma criancinha morrendo de fome no quinto dos infernos com a legenda “E você aí reclamando…”?? Isso não é novidade nenhuma… A maioria já conhece bem quais são os problemas.
Acho que essa angústia que eu senti com as Olimpíadas e a angústia que a Cíntia sentiu com o filho dela foram iguais. Não pela importância do tema -como já disse antes-, mas pela nossa sensação de não estar fazendo nada. E essa sensação é horrível, e é ela que nos faz ignorá-la e seguir a vida adiante. Nos consolamos com “O mundo é assim mesmo; É parte da vida; Porque EU tenho que ser a responsável por isso?”, ou frases do gênero. Eu acho que somos responsáveis. E dessa minha última frase viria todo um novo texto do qual vou poupá-los.
Se é que alguém leu o que eu escrevi aqui, né, hahah.
De qualquer maneira, encerrarei com o pedido mais clichê que há: que façamos algo.
Eu assisti esse e os outros curtas ano passado. Até falaria mais, mas acho que a Cíntia e a Amanda já disseram tudo.
Por minha situação financeira não permitir ajudar a todos q eu encontro pelas ruas, minha atitude é de normalmente no mínimo falar alguma coisa, tentar trocar umas duas ou três frases, só para não passar sem olhar na cara é o meu jeito de tentar fazer alguma coisa. Não consigo simplesmente passar e fingir q não tem nada ali, mas ao mesmo tempo me sinto impotente diante da situação.
Belo post.
Existe um filme um pouco relacionado com isso, se passa no Japão, chamado “Ninguém Pode Saber” (Dare mo Shiranai).
http://omohide.com/wp-content/uploads/2008/11/nobody-knows-wide.jpg
Não acho que o coração humamo seja limitado, o que precisamos saber é que ‘amar’, ‘se importar’ ou o que quer que seja, tem graus e a verdade é que isso depende de proximidade. Querendo ou não, o que você não vê ou ignora com o tempo dói menos, talvez um mecanismo pra seguir em frente e sobreviver,
Também acho errado simplificar tudo a ‘eles’, aos não tão distantes meninos de ruas… do teu lado pode haver alguém tão ignorado emocialmente quanto eles, os menos amados, os menos mimados, os que parecem estar perfeitamente bem só porque tem suas necessidades materias providas.
Enfim, você pode se sentir mal ou não com uma situação, pode tomar pequenas ou grandes atitudes para mudá-la ou pode simplesmente não fazer nada. No fim, o básico é ter ciência de que você não vai conseguir mudar o mundo e que achar que distrinuir dinheiro é a melhor e talvez única solução não passa de hiprocrisia de burgueses com crise de consciencia. Pra mim vale mais o bom e velho ‘faça sua parte’. E não, isso não deve se limitar a doar dinheiro pro Criança Esperança uma vez ao ano u.u
Vou baixar o curta e ver com minha irmã, valeu pela dica!
Olha cara, seus textos são incríveis, já vi o filme completo em uma aula quando estva na quarta ou quinta série, e gostaria de saber se você já escreveu algum livro, porque, sinceramente, sua habilidade pra por em palavras as coisas é…bem não sei se existe palavra apropriada.