Review – O simples Kowarekake no Orgel

Caixa de música meio quebrada é um nome um poético demais, se me permitem dizer.

Em 2009, Keiichiro Kawaguchi (diretor) e o estúdio Eletromagnetic Wave resolveram fazer uma obra peculiar que foi lançada em 31 de dezembro deste mesmo ano. Este ‘estilo doujin’ de produção, que pode ser relacionado a um conteúdo mais artístico, não é algo no qual eu esteja muito familiarizado. No entanto sua historinha comovente e significativa é o suficiente para despertar o mínimo interesse que seja em qualquer um.

Só vi relevância no nome de Kawaguchi por ser o mesmo do protagonista de Kowarekake. Mas ele também trabalhou em coisas relativamente conhecidas como Hayate the Combat Butler. Por ser um OVA de meia hora com mensagens do tipo: dê importância às pequenas coisas, vale a pena dar uma olhada.

A história

Em 2039 a população está acostumada com uma tecnologia prática. Os pequenos androides chamados parents são a base dessa sustentação. Embora todos os androides, ao menos os parentes, sejam mostrados como garotinhas que ajudam em afazeres domésticos, suas funções podem ser maiores e a interação com seus donos é notável.

Keichiiro é um simples garoto de seinen anime. Mora sozinho por alguma razão (pais mortos em acidente de carro), é reservado, tem um ou outro amigo e um passado curiosamente diversificado (não). Como ele não poderia deixar de se envolver com essa proposta futurística, acaba achando no lixo uma parents, que fora deixada por seu antigo dono. Com um moe maior que outros androides mostrados, inicialmente a parents não funciona e ele, ao invés de jogar fora, decide guardá-la. Obviamente ela desperta misteriosamente em alguma noite, acorda pela manhã e prepara o café para Keiichiro. E tudo começa…

Essa parents se mostra praticamente inútil, não tem talentos musicais, matemáticos, linguísticos, artísticos, motores ou pessoais. Contudo, para quebrar essa lógica e relevar seu lado fofinho, ela é querida, dá muita atenção a seu amo e tem uma memória fraca. Nem seu nome ela lembra, o que faz com que Keiichiro pense em uma coisa simples, um chamamento singular, prático e difícil de esquecer: Flower. E assim nasce essa relação, que acaba por tornar-se a representação de um irmão mais velho com sua irmãzinha.

Como não tem a temática de uma narrativa e muito menos de um conto, há poucos ou nenhum conflito que pode se dizer que seja um clímax em Kowarekake no Orgel. Keiichiro e Flower vivem, a partir dessa premissa, com situações aleatórias e cotidianas. Em suma, é só a relação de um garoto com um robô moe, feminizado para dar efeito, e com uma mensagem bonita.

Considerações técnicas

No geral, a animação é básica. É bem feita e tudo o mais, mas o desenho é desproporcional e os personagens não são muito atrativos. Com exceção da protagonista Flower, os demais personagens dão a sensação de figurantes. Na verdade, todos os outros personagens são, sim, figurantes ou secundários que estão mais para terciários. Mas até mesmo Keiichiro não atrai muito por seu visual. O pescoço mal desenhado, o sorriso sem espontaneidade. Apenas a personagem moe fica interessante. E pelo fato de ser moe…

A guitarra dele, então, nossa! Realmente não tem como um ser humano normal tocar direito naquilo. O braço é erroneamente adaptado. Apenas em momentos mais tensos ou dramáticos o traço dos personagens é reforçado e fica mais bonito.

Em contrapartida, todo aquele cenário é muito aprazível. Tirando os objetos que não têm grande enfoque, a maioria dos elementos que constituem cada cena são bem feitos, o que, a meu ver, deveria ser obrigação de qualquer estúdio que produzisse um OVA, apenas um episódio. Se o acabamento vai se dar apenas naqueles poucos minutos deveria haver uma excelência maior. Como um todo esse aspecto se saiu bem. Kowarekake no Orgel consegue prender a atenção de espectadores em determinadas cenas.

No entanto, uma coisa que parece nunca evoluir nos animes é o celular, a forma de comunicação portátil, enfim… Digo, um mundo em 2039 não parece ser como aquele ambientado no anime. Com exceção dos parents, não há nenhum outro elemento que evidencie a Terra daqui a 30 anos . Até a pimenta tabasco que aparece, muito bem feita, por sinal, é a mesma de hoje em dia. Uma proposta totalmente estranha.

A trilha sonora já é um ponto visível. Teclados e instrumentos de caixas de música são o que vigoram, se não tocam o tempo todo, no anime. Ao menos uma fidelidade nesse ponto fica bem imposta.

Além desses aspectos, é estranho o modo como somos apresentados ao mundo de Kowarekake. Logo ficamos sabendo que o anime se passa em um tempo futurístico, mas a duração do anime não é muito grande para podermos entrar em detalhes. E é aí que entra um ponto forte, a forma como isso fica evidenciado e claro, onde já tem como saber de todo o devido contexto da história. Ou seja, em menos de dez minutos há como entender o que passou na mente de Keiichiro para ele ter pegado uma ‘garota’ no lixo, a ‘ajudado’ e estarmos vendo tal relação difícil de acontecer hoje em dia.

Comentários gerais

Primeiramente, imaginei que Keiichiro pudesse estar sendo tão legal com um androide em questão de sua família ter morrido. É um reflexo que ele tem que criar por sentir-se solitário por tanto tempo. Mas nada disso faz sentido se pensarmos na forma como várias outras pessoas tratam Flower. As pessoas a tratam gentilmente, mesmo que não estejam perto de Keiichiro, o que é um tanto estranho; ou a chamam de lixo, a maltratam. Levando isso em conta, fica clara a relação que a humanidade supostamente criou com um objeto mecanizado e digitalizado que tem a aparência de uma pessoa. Neste caso a imagem contaria mais a o que realmente significa os ‘sentimentos’ de um parents. Além disso, também é plausível pensar que, como uma proposta de singularidade, o anime tente colocar em tese o ideal de dar valor a pequenas coisas. Uma caixa de música meio quebrada é algo sem valor, um lixo, segundo nossos conceitos atuais. E esse apego aos pequenos detalhes fica imposto desde o início, quando Flower aponta sua vontade de ver o mar.

Diante disso, a mensagem transmitida pelo anime é o que há de mais relevante. Com um nome peculiar, uma história padronizada e sem grandes emoções, o desenvolvimento é apenas normal. Não vou dizer fraco porque era para ser um roteiro escasso, com somente o vínculo entre esses dois protagonistas. Nesse ponto de vista não há como criticar negativamente o andamento de Kowarekake. Afinal, o que deve ser analisado é a proposta sem grandes pretensões de um anime com recursos adequados.

Tudo começa por uma personagem ingênua, elevando ao máximo as concepções sobre ‘cliché’. Mesmo que toda a parte clichê deste anime possa vir a dar-nos uma imagem ruim deste, a essência da história não é enjoativa. E muito se dá em razão dessa mesma personagem, onde o maior ponto de vista que temos sobre enredo é dela, contando com seu diário de desenhos o que vai acontecendo na série. Opa, no OVA.

E, voltando a falar de Keiichiro, parece que este não se contenta ou não suporta o fardo de uma perda familiar apenas com um robozinho. Mas este robozinho é que lhe dará uma luz em sua vaga vida. Bastaram pequenas evidência, porém nítidas, de que Keiichiro adorava música para Flower poder ajudá-lo realçando este ponto. A morte de sua família o desmotivou para fazer até o que mais gostava, que era tocar, e seu companheiro de banda que aparece em determinado momento apenas assegura esse fato. Na verdade isso é algo estranho no OVA, uma vez que um personagem secundário não vai poder aparecer muito tendo somente 28 minutos de anime. Ao mesmo tempo, o personagem vira algo totalmente inconsistente, servindo apenas para a representação de um passado.

Desde o começo do anime ficava evidenciado que em algum momento Flower se desligaria. Apenas para deixar Keiichiro mais aflito e tirar qualquer esperança de esquecer a solidão. E, durante o tempo em que Flower ficou desligada, Keiichiro mais se comoveu por ela do que pensou em estar solitário.

Um fato que nos proporciona outro ponto de vista: a questão de humanos relacionarem-se com robôs mesmo, objetos. Afinal, Flower representa primeiramente parte da analogia feita entre a perda de Keichiiro e uma nova irmãzinha para ele. Mas quando ela se vai o cara se liga que ela é um androide e não uma humana. E mostrar isso seriamente pode ser um tanto estranho para a nossa sociedade atual, que não convive abertamente com seres… Que não são seres.

Acima de tudo isso, Flower queria ver o mar. E em determinado momento ela afirma entender o que significa este ‘o mar’. O que indica que ela pode captar informações e aprender coisas. Mas pelo menos o roteiro foi humanamente coerente para não dizer que Flower aprendeu o que é amar, ou quaisquer sentimentos. Sendo assim seu maior propósito foi fazer Keiichiro voltar a tocar música. O que já diz muito sobre a missão de matérias não vivas em relação aos seres humanos. No fim, servem só para ajudá-los a atingir uma finalidade, evidentemente.

Com tudo isso fica evidente que eu gostei de Kowarekake no Orgel mais pela reflexão. Como uma obra, no geral, é apenas boa. Um bom que vale a pena.

por Caetano

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12 Comentários

Arquivado em Animes, Review

12 respostas para Review – O simples Kowarekake no Orgel

  1. Só achei meio estranho você meio reparar demais na animação de Orgel. Orgel é só um doujin, feito por um estúdio independente, não tinha como esperar algo super bem feito né, mas acho Orgel maravilhoso por ser bem simples, ele é divertido, enfim.

    • caetano

      Sim, na verdade, eu achei a animação muito boa. Mas o character design sempre me chama a atenção, o que realmente não ficou ruim levando em conta ser um doujin. Enfim, é simples, é legal.

  2. Este anime é lindo *—*
    Poderiam fazer uma temporada dele, pois merece!

  3. Eduardo.W

    É um ova, então tem o anime ou como funciona?

  4. dbatta

    Pena que é um OVA só.

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