Comentando – Shin Sekai Yori #02

A função de uma introdução é introduzir. Só.

Será?

A impressão que me foi passada é de que, lentamente, Shin Sekai ruma a introduzir as partes que irá demonstrar ao longo dos episódios de modo excerto. A ordem, mesmo que ainda esteja cronológica, pode vir a ser modificada para aleatoriedades com o tempo. As explicações servem para confundir e, consequentemente, fazer refletir.

O fato é que o mundo existe e ali está. Como é novo para os espectadores, deve ter suas teorias, temáticas sociais e políticas introduzidas. A vida das pessoas e como funcionam suas relações pessoais, familiares, profissionais, amigáveis será retratada, por sua maioria, por cinco crianças. E é nesse mexe-mexe de introduções que ficam destinadas as confusões de enredo e estabelecimento de relações com os pontos implícitos do anime. Cada pequena mensagem parece ser essencial para que algo de relevante aconteça no final, seja com mortes, conspirações ou decepções.

A introdução do mundo em si já se deu. A introdução da história, fragmentada, continua.

Shin Sekai Yori #02

Disappearing Children

O Imperador do prazer afirma que quem parar de reverenciá-lo servirá como sacrifício.

Se levarmos em conta que o mundo antes de toda a história de Shin Sekai era como vivemos hoje, fica claro que a primeira cena se passa em, no mínimo, 500 anos depois do nosso tempo. Aos poucos, essas histórias “paralelas” no início dos episódios vão ir montando o mundo de Shin Sekai como é mostrado no cotidiano do anime. Contudo, não podemos deixar de levar em conta que as cenas mostradas nos prólogos sejam o que aconteceu depois de tudo, ou seja, as consequências de um mundo utópico que nos é apresentado. É menos provável, mas não impossível. Se assim for, Shin Sekai é uma bela crítica.

Se não for essa crítica, será outra crítica. Quando se fala em histórias de 500 anos e impérios, lembramos dos períodos feudais da humanidade, principalmente uma china em reinado corrupto. E isso fica claro quando o tal Imperador proclama sua superioridade acima de milhares de pessoas, usando o poder que tem. Seja o poder carismático ou sobrenatural, o fato é que ele age como um tipo de rei supremo ou deus, fazendo da religião e dominação absoluta inimigos da humanidade.

O tempo é algo muito importante na análise dessa parte do anime, uma vez que é preciso saber onde se passa aquela determinada cena para encaixar com o final. Levando em conta nossa primeira teoria, fica fácil dizer que aquela primeira cena se passa 500 anos depois das atrocidades em Kanto [Sim, o prólogo do primeiro episódio era em Tokyo]. E o mundo andou em rumo de tais dominações que teremos de entender melhor posteriormente.

Então, voltamos ao clima escolar. E, com isso, retornam as lições de moral impostas no caótico e manipulador mundo de Shin Sekai. Uma representação pós-apocalíptica da era feudal. Analisando bem, é uma ótima representação, uma vez que demonstra socialmente e politicamente como as pessoas vivem de modo reprimido em uma era igualmente sem pretensões de opinião. É como se todos soubessem que há algo de errado naquele mundo mas, ao mesmo tempo, não intervissem por comodismo, medo, insegurança. Os mesmos fatores que fizeram países demorarem para encontrar uma saída a se sensibilizarem são os que rompem a sociedade desse mundo.

Contudo, essas são as regras. Você as segue, vive, serve, reproduz, morre e renasce. É o ciclo que incentiva essas pessoas a não se rebelarem, a não procurarem saber o que está atrás da cerca.

Assim como a vida no anime tem uma temática, a série em si criou uma linha de desenvolvimento. O prólogo instigante, uma história acometedora, teorias mundanas e a vida das cinco crianças protagonistas. Não necessariamente nesta mesma ordem.

E essa história contada por Shun já foi mais interessante. É como uma faca de dois gumes: serviu como incentivo a se rebelar ou a se acalmar. Mostrou como ser diferente do ensinado na escola e na vila pode fazer você se ferrar. Ao mesmo tempo, mostra um garoto agindo pelo orgulho e pela solidão ao invés de ir pelo “respeito” aos seus superiores. Claro, o anime mostra isso no ponto de vista dos dominantes desse mundo, que é como algo negativo. Resumindo: o seu carma ruim resultante de sentimentos o transformará em um demônio

E nessas partes do anime a paleta de cores se torna obsoleta e ríspida. Mas é um desagradável que combina muito com a atmosfera da série, torturante e violenta. E essa atmosfera nos contos fazem-nos pensar que o anime é sobre sobrenaturalidades que encrencam seres humanos, enquanto sabemos que é um tipo de golpe dos “políticos” desse mundo que chegam até a nos afetar.

Enfim, surge um torneio aparentemente bobo. E, com isso, relações pessoais também. Conflitos, certamente, com discussões internas entre Saki e… Satoru. Não convém falar da relação entre os cinco amigos, pois está ainda demasiadamente superficial. Só sabemos que alguém gosta de alguém…

No entanto, sabendo ou não se haverá desenvolvimento dessa parte, individualmente todos acabam sentindo algum tipo de receio quanto ao mundo que vivem. Aos poucos vão se questionando sobre pequenas coisas que acontecem.

Roubar no jogo: “A regra mais importante é que atacar o impulsor de seu adversário é proibido”. Como alguém irá contra a regra mais importante, levando em conta que esse mundo é “tão perfeitamente regularizado”? É algo que, ainda que as crianças sejam inteligentes, parece fora de um contexto material.

Interagir com os Bakenezumi, os ratões escravos: eles sabem que é algo errado. Sabem que Saki pode se ferrar em razão disso. Sabendo que é contra o mundo deles, como não irão questionar os porquês disso, as reais consequências, por que algo assim pode acontecer na vida se é errado? Crianças são tolinhas mas nem tanto. São elas as que mais questionam, tendem a ser sinceras, mesmo sentindo mais medo do novo. Aliás, elas têm 14 anos, né?..

Essa é exatamente a proposta de as cinco crianças conspirarem de alguma forma. Mostra que elas são diferentes das outras, principalmente por terem um elemento surpresa que entenderá o mundo “adulto” reprimido: a telecinese de Saki. Afinal, esse poder é o único, que tenhamos em mente, capaz de ouvir as mentes dos ‘malvados’.

Tirando isso, é interessante quando eles estão preparando os objetos do jogo ou mesmo armando táticas para vencer. Traz o mínimo que seja acerca do que pode entreter as pessoinhas daqui a mil anos. Sem contar aquela caracterização, as roupas… Quase sem sentido, apenas promovem a estética do anime. Ao mesmo tempo, traz à tona simbolismos e a rigidez de um sistema.

Enfim, o episódio serviu essencialmente como esse lado slice of life. Nada convencional, é claro. E há pontos fortes nisso.

Contamos que o anime terá cerca de 25 episódio, então fica fácil haver esse ritmo lento entre o slice of life mundano e os descobrimentos sobre Shin Sekai. Além de que o próprio jogo das bolas usando o Cantus é algo criativo. Se houverem coisas assim, mesmo que não tão relevantes para um enredo principal em si, eu ficaria satisfeito.

Até porque não é um slice of life completamente aleatório. Mesmo esse jogo promove pequenas mensagens quanto às personalidades dos protagonistas. E isso dá a entender que eles já se encaminham para um intervenção na história desse mundo, vide a ajuda de Saki para os Bakenemuzi e seu descumprimento com as regras.

O clímax do episódio é a trapaça. A garota do grupo três chorando pela perda é algo notável para uma equipe que tanto se esforçou e perdeu em razão de um acidente. Enquanto os ‘choros’ da equipe um foram de frustração e certa raiva.

Notem que Saki e seus amigos revidam com um argumento em referência à trapaça. Eles questionam, não apenas aceitando o fato de o acidente não poder ser, na verdade, um incidente. As teorias de como o grupo dois trapaceou não são importantes e, sim, o fato de perceberem a trapaça, ainda que não tenha sido explicitamente colocada em tese.

A única coisa que realmente me incomodou foi o uso da computação gráfica, que fora agradavelmente passada despercebida no episódio de estreia. Não que tenha ficado ruim, talvez não houvesse um modo mais eficiente e decente de fazer isso com uma tecnologia de hoje, mas, que me incomodaram, isso sim. Só fico feliz por não ter como ficar pior que Sword Art Online [rsrs].

Espera, houve outra coisa insana. O buraco tapado. Sério que caíram naquela?

Bem… Outra coisa: houve um acidente entre o grupo dois e o grupo três, porém, o grupo dois for considerado vencedor. Enquanto o grupo de Saki perdeu com praticamente o mesmo acidente. Sei lá…

Em meio a isso, há uma atmosfera de mistério e um suspense dentro de algo muito banal. Isso faz sentido se considerarmos aquele fato das personalidades de crianças, mas também parece um apelo de feeling com uma cena nada trágica.

E eu esperei colocar a imagem abaixo para dizer o quão boas ficaram essas narrativas. “Isso é uma violação com o Código da Virtude”. Essa narração de Saki quando mais velha dá a sensação certa de crianças explorando um mundo corrompido, ainda que pareça, mais uma vez, superficial.

Ainda, Saki questiona-se sobre os termos corretos desse mundo, agora em um diálogo mal ambientado com sua mãe. As roupas de ambas estavam realmente estranhas, ainda que repercutissem no fato de ‘novo mundo’.

Sem contar isso, a protagonista percebe no olhar da mãe [assim como qualquer babaca notaria] que algo de ruim acontece na academia se você erra. E Saki nem precisa disso, ela pode explorar a mente da mãe a seu bel-prazer, ainda que não saiba disso devidamente.

Viram quem é a próxima pessoa a ‘desaparecer’? Katayama Manabu.

Animais sendo escravizados pela humanidade e crianças sentindo pena deles, mesmo sendo ‘detestáveis’. Algo de estranho nisso? Não…

As vozes da Saki mais velha narrando e de sua mãe são parecidas. Ela quando pequenininha também era muito semelhante à sua mãe de hoje (?). Uma semelhança que tem algum significado maior, com certeza. Aguardem!

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18 Comentários

Arquivado em Animes, Comentando

18 respostas para Comentando – Shin Sekai Yori #02

  1. Sobre a computação gráfica. É mais barato fazer uma animação em CG “ruim” do que uma animação “convencional”, mas é muito caro fazer uma animação GC “perfeita”. Observe os filmes da Disney/Pixar, são em CG e as animações são excelentes, mas é investido muito dinheiro neles, fora o computador motherf****r que eles usam para renderizar o filme. Acredito que nenhum estúdio de animação japonês ira investir tanto em um anime.

    • Olha, investir a ponto de uma animação hollywoodiana não é algo na realidade de estúdios japoneses. Mas usar a animação convencional já é algo mais agradável e não requer tão mais investimento. A mistura não é atraente, apesar de ficar interessante em alguns casos.

      • Pedro

        Não entendo nada desse negócio de CG , GC e tal…qual a diferença disso pra quem trabalho na parte do character desing e na parte do fundo (acho que que beckground). Se puderem me explicar agradeço! Sempre me perco nessas parte técnicas dos animes!

  2. HeverGM

    Até agora o meu anime favorito desta temporada…
    Já me apeguei a está serie igual havia me apegado a Steins;Gate no ano passado, terminei de ver o episodio e o sorriso de satisfação não saia da minha cara!
    \o/
    Esta serie sabe usar a “curiosidade” a seu favor, o comentario sobre que a Saki faz sobre a Maria no fim do episodio me fez entrar em surto de alegria.

  3. Hareluya

    Será que vão animar as cenas de sexo do mangá e da LN?

  4. Eduardo.W

    “Só fico feliz por não ter como ficar pior que Sword Art Online [rsrs]” Estou acompanhando SAO pela Light Novel então ainda não vi o anime, qual foi o problema da animação?

    • Acredito ser uma das maiores decepções do ano. Roteiro e desenvolvimento ruins, pegaram a parte chata que tinha da novel e adaptaram de um modo insano. A cada episódio não dá para sentir de verdade a emoção de um mundo como SAO. Apenas no episódio 14, que acaba se tornando ridículo em razão do resto do anime.

  5. não gostei do ep1 muito menos do 2, se o 3 nao acontece nada ou ficar nessa vou dropa.

  6. Eu achei a cena do começo meio forçada. Me pareceu feito só pra deixar a gente com horror desse futuro. Dentro do contexto do anime, que faz questão de mostrar seu mundo aos poucos e por meio de detalhes, acho que ficou fora de lugar. De resto, gostei bastante do episódio.

  7. Rayovac

    o episódio serviu apenas para confundir e introduzir nós ainda mais nesse mundo completamente estranho, mas que traz mensagens muito interessantes, apesar de se arrastar no desenvolvimento achei que cada frase de impacto foi bem colocada e não vejo problemas graves no enredo, o fato é que no jogo acho que a ideia de o acidente ter sido perdoado nos dois jogos é para não abalar a estrutura aparentemente perfeita do mundo… mas não sei… ainda é cedo para dizer alguma coisa…

    Rayovac!

  8. Nekodamashi aos 15:02, quem viu? \o

    • Sim, ninguém chegou a comentar, mas em uma cena em que o garoto trapaceiro esta andando perto de uma casa, em seguida aparece um vulto de gato muito rapidamente. E logo depois, seu nome é carimbado como aconteceu com a garota, Reiko, do primeiro episódio, que havia desaparecido.

      E outra. Esse pequeno conto sobre o demônio do karma mostrado no início do episódio, de certa forma acaba se assemelhando um pouco ao garoto Manabu. Assim como o relato sobre o Nekodamashi do primeiro episódio, que pega as crianças que não desenvolvem poderes como os outros. A garota Reiko, que desapareceu, era a quem menos tinha habilidade em controlar seus poderes.

      Será tudo coincidência?

      • Não, é tudo um bom trabalho da A-1 mesmo! rsrs

      • é como o caetano disse :D as coisas estão bem amarradas. O caso do Manabu é a mesma coisa da historinha, praticamente. Na escola eles ensinam as crianças o que não fazer, e punem as que saem fora da linha… ainda que na superfície decidam pelo empate amigável XD
        Isso não é algo estranho visto o poder do Cantus. Imagina se o povo começar a se rebelar e usar os poderes como quiser, então tem que manter eles no cabresto desde criança. Esses jogos e torneios e passeios devem servir também pra ir separando o joio do trigo de forma velada.

  9. Preconizador

    Imitação de um anime que usava cenários reais, e eles podiam usarem magia. Porém, havia regras que não deviam usarem magias a toa. Uma imitação, se é que o anime seja do mesmo autor. Aí, ok.

  10. Paulo

    Eu não vou me estender muito no meu comentário, já que muito do que pensei ao ver esse episódio de Shin Sekai Yori já foi dito no texto, então só vou me limitar a dizer o quanto esse anime é instigante, já dá para criar várias teorias sobre a trama, além disso acho muito interessante a forma como está sendo trabalhada a trama como um todo, sem contar a interação dos personagens que é boa e os questionamentos que surgem com relação aquele mundo que são bem pertinentes. Não é um anime que me faça dar pulos de empolgação, mas mesmo assim Shin Sekai Yori consegue prender muito a minha atenção e para mim se tornou uma das boas surpresas da temporada, já que eu não esperava grandes coisas desse anime.

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